Se estiverem envolvidos num
acidente de viação, a grande maioria dos carros pertencentes ao Governo
português não apresentará ligação a uma qualquer seguradora, cabendo aos seus
condutores, se considerados culpados, a obrigação de arcarem com as despesas do
próprio bolso
De acordo com um levantamento da Agência
Nacional de Compras Públicas (ANCP), referente ao passado ano, somente 5.572 das
28.793 viaturas do Estado se encontram seguradas, ou seja, mais de 80% dos
carros do Estado não têm qualquer espécie de seguro. A maioria destes veículos
sem seguro pertence ao Ministério da Administração Interna (MAI), estando, por
seu lado, distribuídos pela GNR e PSP. Há ainda que salientar o facto de que os
condutores destas viaturas, em caso de serem declarados culpados em acidentes, são
alvo de processos disciplinares e obrigados a arcar com as despesas.
O top dos ministérios
Os dados do ANCP demonstram que não
existe um único ministério onde a percentagem de carros com seguro atinja sequer
metade dos aí existentes. O ministério da Saúde, com 21,1%, é o que mais
viaturas cobertas tem. Já no MAI e no ministério do Trabalho e da Segurança
Social, as percentagens são apenas de 13,8 e 11, respetivamente.
Isenção legal
Na verdade, a ausência de seguros
nos veículos do Estado não é ilegal, uma vez que se encontra prevista na lei,
permitindo-lhe poupar grandes somas. Porém, tal como acontece na GNR e na PSP, quando
ocorre um acidente e o condutor é considerado culpado, é este mesmo quem vai
ter de suportar as despesas, tendo ainda de enfrentar um processo disciplinar
que termina, quase sempre, com a aplicação de dias de multa (dias de trabalho
que não lhe serão pagos).
As opiniões
Para Nuno Salpico, do Observatório
de Segurança das Estradas e Cidades, “o Estado tem todo o interesse em que os
seus motoristas tenham seguro, pois, em caso de acidentes graves, com elevados danos
e indemnizações para pagar, sabe-se que isso pode ser um problema grave para o próprio
Estado, uma vez que o condutor culpado não possui meios financeiros para
pagar”. Também Manuel João Ramos, da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados
(ACA-M), “essa regra [isenção de seguro] reporta-se a uma época em que os
carros do Estado não eram sequer um décimo daqueles que hoje existem. O que se
constata atualmente é que os condutores dos carros do Estado são sujeitos a uma
situação de quase chantagem por parte dos detentores de cargos públicos. Têm
mais algumas regalias por conduzirem essas viaturas, mas sujeitam-se a todas as
formas de pressão, sobretudo psicológica. Depois, quando há um problema, as
coisas são abafadas, normalmente com as intervenções dos ministros, que acabam
por limpar o cadastro aos motoristas”.
Velhas e em mau estado
Outro dos items que consta do
relatório da ANCP diz respeito à idade das viaturas do Estado, visto que dentre
as mais 27 mil com matrícula, existem 6.173 (22,3%) com mais de 16 anos de uso.
A idade, associada às dificuldades de manutenção destas viaturas, representa
uma das principais reclamações de quem as utiliza, ou seja, das forças
policiais GNR, com 5.531 veículos, e PSP, com 3.913.
Quando a esperança nos
políticos começa a não ser mais do que uma utopia, quando parece que nada pode
fazer a vida melhorar, muitas pessoas procuram soluções por outros caminhos.
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